quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Humanos. Não, coisas!


Fui ver a mostra "Corpo Humano: Real e Fascinante" e, realmente, é de espantar. Admiro muito os médicos, nunca seria um deles. Sou comunicador. Por isso, aqui escrevo minhas impressões...

Vivemos tempos que pedem cada vez mais transparência nos governos, nas empresas e nas estruturas funcionais sobre as questões financeiras, ambientais e sociais e, assim, a mostra está em sintonia com os dias de hoje. Ponto a favor.

Não por acaso estamos buscando a descoberta detalhada de tudo que nos cerca – a começar pelo nosso corpo e os microscópicos mistérios da nossa genética: a combinação dos cromossomos, a possibilidade de montagem de clones. É a nova onda da inovação: biotecnologia, nanotecnologia, robótica. Aliás, muitas empresas têm atualmente projetos de branding para “(re) descobrir seu DNA”, captar sua “alma”.

Num primeiro olhar no site do evento, eu já ousaria uma reflexão: a organização diz que é uma oportunidade para se explorar os mistérios da própria existência através de 16 corpos e 225 órgãos verdadeiros que “revelam - em todos (isso mesmo: todos) os seus aspectos - o funcionamento do corpo humano e seus sistemas”. Interessante - nada escapa, portanto. E eis aqui, minha primeira inquietação.

Ora, leitores (as), a exposição não cumpre esse papel por um motivo simples: não basta vasculhar vísceras, órgãos, veias e nervos sob lente mecanicista para garantir o conhecimento da vida humana. A vida que habita o corpo não se explica na mesma lógica do liga e desliga das máquinas. Não se explica através das ordens de comando e controle que registradoras, tratores ou robôs podem ter. A “perfeição” do corpo não é como a sincronia de um relógio, de um motor de um carro, de um computador. Ela tem algo de divino, de misterioso e infinito – pois inexplicável, em constante mutação, evolução, dinâmica e milagre. Sem envolver qualquer religião, mas simplesmente perguntando-se “Como vive? Come, respira, anda, fala, pulsa e vive?” Ora, então vamos criar vida por aí? Enchendo sacos plásticos de vísceras com pulmões artificiais, corações – como se fosse coisa fácil. Como se a técnica, mais um pouco, pudesse dar conta disso.

A tendência de querer explicar e comprovar que, assim como um balanço contábil com seus cálculos segmentados em linhas organizadas, bem descritos e calculados, é possível esclarecer o milagre da vida, é irreal. E quando olhamos aqueles corpos fatiados milimetricamente sobre pedestais e vitrines é isso que, parece, querem nos transmitir. ”Veja, vocês são assim” – nada muito divino, nada misterioso; tudo comum, um amontoado de glândulas iguais, iguais como sapos dissecados, como bactérias sob lentes.

Tão irreal quanto as prestações de contas e empréstimos hipotecários em papéis vendidos a instituições financeiras, que culminaram em uma crise mundial das finanças. Se tudo era tão transparente e fácil de ser visto, esquadrinhado, o que deu errado? Com esta mesma lógica, busca-se explicar o humano - retalhado em tiras finas, em cortes perfeitos, onde até fiapos de cabelos e cílios ainda estão lá, nos corpos e seus orifícios. Há algo de opressor naquela exposição. Não sem razão, diz o boato corrente de que são corpos de perseguidos pela ditadura do partido totalitário que comanda a China. Será?

A dissecação daqueles mortos tenta mostrar a perfeita matemática das engrenagens: músculo, osso, nervo e sangue; vasos, veias e artérias; nódulos, órgãos, pele. Quase uma comparação com porcas, parafusos, fusíveis, chips, fios, baterias.

Não adianta. Nem os balanços matemáticos foram capazes de salvar as contas de maneira confiável, nem a mostra poderá chegar ao completo funcionamento do corpo humano. Não sob a ótica do velho Século XX, mecanicista, coercitivo, manda-obedece.

Se queremos saber de tudo e saber como manter o funcionamento de cada pulsação sanguínea, cada bombeamento do coração, cada respirar dos pulmões, além da questão da transparência (nunca se falou tanto nisso) – não podemos nos esquecer do sagrado. Repito: não basta encher tudo de sangue, ar e comida para que a “máquina” humana funcione. É preciso ir além – e nós não temos esta resposta.

Como explicar a vida? A vida não tem explicação, quando chegamos aos limites humanos. Onde termina o homem? Ali naquele salão, onde corpos de gente que não conhecemos estão expostos à curiosidade mórbida (sim, de certa forma, mórbida) de cada um dos visitantes, eu inclusive? É ali que terminamos ou começamos?

Aparentemente são corpos dissecados, um manual de juntas, tendões e carnes aberto aos detalhes. Mas qual! Por que viviam?

Não somos máquinas, já havia dito isso em uma de minhas palestras. Mas fica mais fácil olhar a vida através do critério prático-funcional do “tempo e movimento”, insistindo na tese de que peças e objetos têm muito em comum conosco. Naqueles retalhos de pessoas, fica registrado justamente isso.

O perigo é banalizar, objetificar. Porque cada pedaço cortado parece carne no açougue. E aqui, a maior inquietude: gostaria de saber quem foram aqueles corpos... O que sonharam? De onde vieram? Nomes? Vidas?

E o que as sociedades, as empresas e os governos mais precisam hoje, para reatar laços de confiança desmontados, é precisamente o oposto: resgatar o mítico, a visão do extraordinário, o ritual de grupo em torno de emoções humanas – nas conquistas, nas celebrações, nos lutos. O respeito à vida como patrimônio sagrado e insubstituível. Resgatar os afetos, valorizando não o fazer a qualquer preço – que transforma todos em “recursos”, em “contribuintes” ou em números de CPF - mas atentar para o “como”. Como estamos fazendo as coisas acontecerem. Como estamos desumanizando as relações e, com isso, sacrificando vidas todos os dias. As nossas próprias inclusive. Sem perdão, sem atenção, nos pequenos desleixos diários, nos pequenos desrespeitos. Sem chance ao diálogo, na mudez da violência. Nas grandes truculências contra gente indefesa, na soberba dos poderosos e nos abusos de autoridade diante de pessoas comuns, nos crimes hediondos que acontecem diariamente.

Por isso, visitar a exposição "Corpo Humano: Real e Fascinante" é uma aula fundamental para nos alertar: nós somos aqueles corpos! Para perceber que não somos robôs, somos humanos. E não podemos virar objetos, não podemos ver os outros como coisas, carnes expostas a esperar na fila da vida.

E que nossas histórias devem muito aos que vieram antes de nós – assim como aquelas pessoas que hoje são corpos mortos plastificados, expostos aos nossos olhares. E que a vida humana tem futuro, pois nosso respeito deve considerar não somente os vivos de hoje, mas as futuras gerações – legando uma herança de respeito aos direitos humanos, ao planeta e a crença no divino que há na vida.

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