terça-feira, 29 de setembro de 2009

Coerência: o "walk the talk" nosso de cada dia.

Já tenho escutado e lido (acho que eu mesmo já escrevi por aqui) sobre o "walk the talk" ou o alinhamento entre discurso e a prática, item tão necessário para a construção da confiança nas relações humanas. Confiança abalada em tempos de relações efêmeras e ansiosas, cerceadas pelo medo. Pelo medo do aquecimento global e o apocalipse ambiental, pelo medo dos terroristas, pelo medo de não ter emprego ou de se manter no emprego, pelo medo da violência urbana, medo do imposto de renda e a mordida do leão faminto, pelo medo da soberba dos poderosos, medo disso e medo daquilo. Tempos de ansiedade, realmente.

Daí, a confiança nas palavras, nos dizeres,ser tão rara, tão fugaz. Pois o discurso não traduz a ação real. A boca articula um pensamento e a voz se faz ouvir, mas o corpo mente no próximo ato: hipocrisia, sarcasmo, desilusão. Mas onde começa tudo isso? Começa na gente. E se a comunicação esta desse jeito entre as pessoas (me digam se estou exagerando, ok?) imaginem nas empresas. Porque empresas melhores só existirão com pessoas melhores. Só existirão não com funcionários em piloto automático, na luta contra os ponteiros do relógio. Mas com cidadãos lúcidos, conscientes, atuantes. Certos de suas escolhas. Porque nós fazemos as escolhas para o certo ou o errado, para o bem ou o mal. Portanto, qual será a próxima escolha?

Medo do aquecimento global? Ou esperança por um mundo mais equilibrado? Medo de um AVC? Ou uma vida mais saudável? Porque é assim:o mudar o mundo precisa de um ato inaugural, o compromisso maior - aquele que fazemos com nossas consciências. Todos os dias. Diante de cada momento que exige uma escolha e que se traduza em coerência entre as nossas palavras e a prática diária por uma vida em equilíbrio. Primeiro conosco.Depois nas nossas relações com o mundo. E com palavras mais sábias, menos mascaradas e mais sinceras. O "walk the talk" - como se vê, não é moleza.

É um convite à coragem de tentarmos melhorar o mundo e onde a sustentabilidade não seja um relatório plasticamente editado, mas uma mensagem transparente de aprendizado e coerência. Um livro em obras.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

VISÃO FRAGMENTADA X VISÃO SISTÊMICA.

Numa conversa com um engenheiro de uma fábrica de bombas, mísseis e explosivos foi perguntado se o sujeito tinha algum tipo de culpa pelo que produzia. A resposta veio com um tiro de fuzil: “Não tenho culpa de nada. Aqui eu só faço a colocação do detonador. Nem sei quanto de explosivo existe nesse artefato. Também não sou eu quem jogará essa bomba em cima dos outros”.

O exemplo acima ilustra bem o que significa ter uma visão fragmentada do mundo e da vida. Diferentemente de uma visão sistêmica – que considera o conjunto, o todo e a teia de conexões e interdependências de qualquer atividade humana. E que é fundamental para a sobrevivência atual de nossa espécie na terra.

Mas de onde surge essa visão estanque? Acredito que vivemos sob a influência de dois modelos de pensamento que não somente nos trouxeram o crescimento industrial e a fartura de produtos como automóveis, geladeiras, computadores e ogivas nucleares. Mas que também trouxeram, por conseqüência, os engarrafamentos, a queima de combustível fóssil e a poluição do ar, o desperdício de energia, a guerra moderna e seu poderio militar destrutivo como nunca se viu na história humana.

Falo sobre o pensamento de Descartes e de Newton. Pensadores geniais que transformaram o mundo pela força de suas idéias. Mas que estavam apenas parcialmente certos. Explico: quando se determina que a verdade é tudo aquilo que a razão pode explicar, privilegia-se o mental, racional, matemático e deixa-se de lado outras visões da verdade como os costumes, a cultura, a emoção, a espiritualidade (não de uma religião, mas de uma crença maior nos mistérios da vida). Ou seja, produz-se um modelo onde só a razão e a mente valem.

Ou seja, ao explicarmos a vida e o universo a partir de uma visão mecanicista, onde o mundo funcionaria como um grande relógio, passamos a perceber a dinâmica da vida como um conjunto de peças dentro de ritmos determinados pelo tempo e pelo movimento. Peças perfeitamente controláveis. Um modelo mental que acabou classificando homens e mulheres como “recursos” e dessa forma plenamente substituíveis ou trocáveis, assim como peças de uma máquina – muito bem retratada na genialidade de Charles Chaplin no filme “Tempos Modernos”.

E mais ainda. Um modelo que deixou de perceber que a industrialização e o crescimento contínuo de negócios não consideravam há até poucos anos, os impactos desse crescimento sobre ecossistemas variados. Uma visão – fragmentada – que deixava a natureza do lado de fora das fábricas, desconsiderando o valor do que podemos chamar hoje de capital natural. E pior: na sua prepotência em traçar metas e objetivos, acreditou que através de um controle feito pelas planilhas matemáticas poderia comandar e controlar tudo. Inclusive a vida.

Ora, quem consegue controlar a vida? Ainda não existem respostas para isso. Assim, tanto Newton quanto Descartes descobriram uma apenas uma parte da verdade do mundo. E hoje, precisamos acrescentar, incluir, considerar, perceber outras dimensões desse gigantesco mistério chamado vida. Nosso futuro depende dessa visão sistêmica.

A partir disso, desta visão holística, do todo que nos une e nos insere numa teia universal, poderemos entender que nossos atos, dos mais simples aos mais complexos podem afetar nossos rumos, podem afetar nosso futuro. É um desafio muito grande começar a mergulhar nessas dimensões. Mas a tal sustentabilidade, palavra da moda, precisa exatamente disso: de uma visão mais abrangente – que vai gerar alguma reflexão e muito aprendizado. Por tabela (Ops, olha o racional aí!), novos processos, novos jeitos de fazer, de organizar. Vai gerar inovação. Mudança.

E vai fazer também que aquele engenheiro lá na fábrica de bombas não tenha a desculpa perfeita de dizer que ele só é responsável por uma pequena parte do trabalho. Que não faz mal a ninguém na sua rotina de instalação de pequenos detonares dentro de pequenos ou grandes mísseis. Aliás, quem sabe num futuro não tenhamos mais este tipo de negócio? Indústria de armas, complexos militares...

Afinal, numa visão maior vamos nos descobrir não sujeitos desconhecidos, estrangeiros ou intrusos, mas membros de uma só família que habita o mesmo endereço residencial: a Terra. Faz sentido para vocês?

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Consumo.

Bom, depois de ver os vídeos que fiz referência nos dois posts abaixo, é hora de um pouco de reflexão. Que tipo de consumidor você é? Porque esse é um ponto que bate de frente com nosso futuro comum. As escolhas que estamos fazendo hoje se refletem no amanhã do planeta. Ou seja, que tal começar a ler a etiqueta, o rótulo do produto que você está comprando? Pode não ter muita coisa (mas devia, se a empresa fosse 100%preocupada com seus processos de fabricação) ou pode ter alguma coisa tipo: fabricado na China. O que pode não dizer nada para você, mas pode dizer que aquele brinquedinho, peça de roupa ou eletroeletrônico foi feito por crianças em situação similar à escravidão, ou feitas por presos políticos. Tudo bem para você?

Ok, a China fica do outro lado do mundo, não é mesmo? E esse assunto de Direitos Humanos é coisa deles, não nossa(é ironia, tá?). Mas e se a etiqueta disser que o produto veio da Amazônia? Ou não disser? Tipo: a madeira daquela mesa super estilosa que você colocou na sua sala, com um conjunto bacaninha de banquinhos de madeira. Todas as peças feitas com madeira não certificada, cuja origem é de desmatamento criminoso mesmo. Mudou alguma coisa? Para você? Para sua empresa (caso forem todos os móveis novos do escritório ou se forem as madeiras daquele stand na feira de negócios)?.E aí?

Ou seja, vamos começar a pensar - rápido - sobre nossos hábitos de consumo? Sobre nossas escolhas? Sobre a responsabilidade de cada pessoa, física ou jurídica? Nosso futuro vale isso não vale?

Comunicação e sustentabilidade 2 - Consumo.

Para quem acha que sustentabilidade é só para se aparecer "bem na foto" e surfar a última onda do momento, confiram duas versões bastante polêmicas sobre a marca DOVE.
Um da própria empresa enaltecendo a auto estima das mulheres e alertando para a insanidade da busca da beleza última - a inalcansável em termos de perfeição absoluta.

Esta lá no You Tube, em Beauty Pressure, no link:

http://www.youtube.com/watch?v=Ei6JvK0W60I

Outra é do Greenpeace (eles novamente - campeões em comunicação), assista e compare:

http://www.youtube.com/watch?v=odI7pQFyjso&feature=related

Comunicação e Sustentabilidade.

O Greenpeace é uma ONG que sabe usar a comunicação de maneira estratégica para chamar a atenção sobre alguns temas bastante polêmicos. Uso da energia nuclear, que tal, para a gente começar a falar? Afinal, vamos entrar num novo tempo na história militar brasileira com a compra de um submarino atômico francês pela bagatela de R$ 20 bilhões. Então, relembrar é viver, por isso, mais atual do que nunca - Chernobyl, o maior desastre da história nuclear mundial num vídeo imperdível.

Acesse e confira no You Tube - 20 years ago: Chernobyl

http://www.youtube.com/watch?v=CUzu1eegKWM&feature=channel

domingo, 13 de setembro de 2009

Vida de consultor.

Vida de consultor de comunicação é assim mesmo. Sábado com reunião num cliente para traçar a estratégia de uma ação emergencial. Domingo finalizando o plano de comunicação e a pauta de reunião de outra empresa. Alguns momentos para reler Peter Senge, mais um pedacinho do dia para fechar a próxima aula na Pós de Comunicação Integrada (desta vez vamos abordar o tema consumo x consumismo) e, olhem só, tem até alguns minutos para atualizar o blog!

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Case Light - Dona Marta.

Articular Governo do Estado, iniciativa privada e comunidade para gerar uma nova realidade politica, ambiental, social e economica. Quem não gostaria de conhecer um caso de sucesso com esta proposta? Pois então, fui um ouvinte atento da palestra de Carlos Piazza, Superintendente de Público da Light,acompanhado da Gerente de Comunicação Jordana Garcia na apresentação geral da empresa e do case "Dona Marta" na ESPM.

Já conhecia bastante a Light pois pude contribuir na elaboração do relatório de sustentabilidade de 2008 e, atualmente, trabalho com a área interna da empresa junto à Diretoria de Gente. Mas é uma satisfação rever um caso de sucesso que comprova que competência técnica, protagonismo e porque não dizer, alegria em realizar conseguem mudar realidades - para melhor. E é isso que está acontecendo na comunidade do Dona Marta, uma favela no Rio de Janeiro, cujos habitantes até pouco tempo atrás não possuíam uma rede elétrica segura(as fiações que cruzavam a comunidade eram emaranhados de ligações clandestinas) e que nunca receberam em suas vidas contas de luz - mesmo porque não tinham endereço de entrega(na favela não havia nomes de ruas e muito menos CEP para os correios). Além de estarem à mercê do tráfico de drogas e das milícias que não permitiam serviços públicos no local.

Através de uma iniciativa do Governo do Estado, sob o atual mandato de Sérgio Cabral, a Light aceita o desafio de organizar a rede elétrica da área (construindo todo um sistema de distribuição de energia com postes, fiação, caixas de força e geradores)e montando as instalações elétricas nas casas dos moradores e doando seis mil novas geladeiras(as antigas geladeiras dos moradores eram verdadeiras devoradoras de energia e produtoras de gás CFC). Além disso, a empresa coloca as placas com os nomes das ruas - escolhidas pelos moradores (que ganham através das contas de luz, agora cobradas, um comprovante de residência - fundamental para terem crédito e até para registro de documentos).

Através de uma comunicação transparente com os moradores e da construção de um relacionamento baseado na confiança, a Light estabelece a cobrança de uma tarifa subsidiada inicial de cerca de R$ 15,00 e mais toda uma assistência técnica esclarecedora junto à comunidade para fazer evoluir a nova relação e seus novos hábitos de vida. É preciso criar uma cultura capaz de perceber o valor que a legalidade pode trazer para quem viveu sob a tirania do tráfico (que entre outras aberrações costumava sequestrar funcionários da Light e fuzilar geradores, causando apagões pelos bairros próximos).

Um exemplo de como a necessária e inteligente articulação entre diferentes atores sociais pode gerar bons frutos para a cidadania, a economia e o meio ambiente. E outras favelas virão dentro de proposta idêntica, pois o modelo mostrou-se viável. É claro que os problemas foram diversos e gigantescos, mas o esforço conjunto trouxe e vai trazer ainda mais recompensas para todos. E o conhecimento adquirido nesse processo poderá ser multiplicado por outras operadores de energia do Brasil em situações semelhantes às encontradas na favela carioca.

Quem quiser saber mais, basta acessar o site da Light: www.light.com.br e buscar outras informações no relatório de sustentabilidade on-line de 2008. É uma pena que o vídeo com o case do Dona Marta não esteja disponível. Fica aí a sugestão ao Piazza e à Jordana.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Gestão de redes de stakeholders.

Para o professor e escritor Augusto de Franco, "tudo que é sustentável tem o padrão de rede". Assim como nossos cérebros são redes neurais com uma miríade de conexões e sinapses, a vida e seu equilíbrio também dependem de uma extensa rede de contatos e conexões para seu funcionamnto, sua dinâmica, sua evolução.

Trata-se mais ou menos como uma pedrinha dentro do sapato: ao final de um dia inteiro andando com o pequeno incômodo na sola do pé, o corpo estará dolorido, pois a coluna terá sentido o desequilíbrio nos passos dados afetando todo o conjunto físico e por consequência mental. Assim como a pequena pedra, incomoda pela inclusão externa no todo (como uma espécie de 'poluente' externo), ao retirarmos parte do cérebro, a plena capacidade intelectual, sensorial e perceptiva do ser humano será impactada. A 'rede' estará afetada.

Ou seja, nosso atual modelo fragmentado de perceber as relações e o mundo mostra-se ultrapassado diante de nossos desafios ambientais, sociais e econômicos e de um mundo cada vez menos estanque - pois cada vez mais ligado por redes sociais, redes de relações, teias colaborativas e complexas (que desconhecem fronteiras políticas e geográficas). Olhar e trabalhar apenas uma pequena parte dessa rede é portanto, uma visão fragmentada que não dará conta das soluções necessárias uma vez que não enxerga o quadro maior.

Temos hoje ao alcance dos nossos dedos e de alguns cliques, todo o conhecimento produzido pela humanidade ao longo da história. Somos uma enorme família que começa a se reconhecer e a perceber que habita a mesma residência: a Terra. E é por isso que instituições, governos, universidades, empresas não podem mais abrir mão de gerenciar as redes de stakeholders que interferem e se relacionam dentro deste universo de ações e reações permanentes. As empresas então, públicas ou privadas, em muitos casos, detentoras de um volume de capital muito maior do que o PIB de países inteiros, apesar de seu poderio econômico, devem intergir mais com seus públicos de interesse (ao invés de tentar controlá-los). Afinal, as empresas, assim como diversas outras organziações humanas, perderam sua centralidade. Fazem parte de redes: complexas, desorganizadas, mutantes - mas também ricas em sua diversidade, sua geração de conhecimento, seus processos inovadores de colaboração e influências.

Mas como iniciar um processo de tamanha envergadura? Entram aqui, como passo número um, a atuação de novos profissionais de comunicação com perfil mais holístico: humanistas que precisarão entender mais sobre cultura, política, comportamento humano, história, ecologia, economia e tecnologia. Homens e mulheres que já chamei de "os novos renascentistas" num artigo recente para a ABERJE 9gente que poderá ser ou formada em comunicação social ou marketing, como o são a grande maioria dos comunicadores empresariais atuais - eu um deles!). Com tais pessoas à disposição, as empresas poderão organizar seus sistemas de relacionamento de maneira interativa (porque 100% dialógica) aperfeiçoando modelos de negócios através de uma intensa troca de conhecimento, interpretações, percepções e opiniões dentro das suas redes de atuação. Mas esta é apenas uma parte de toda esta conversa e esse desafio gerencial moderno.