terça-feira, 19 de janeiro de 2010

COMUNICAÇÃO PARA UM PAÍS SUSTENTÁVEL?

Trabalhei no Pará durante um ano de minha vida e descobri um Brasil que eu não conhecia. Confesso: até acreditava que conhecia bem o país através dos livros e revistas que já havia lido. Mas, ledo engano. Visitar e vivenciar o espaço novo, não como visitante, turista – mas como morador local nos permite uma maior clareza a respeito de problemas, oportunidades e desafios existentes. O espaço amazônico, naquele estado, é de uma variada biodiversidade, uma cultura fascinante, com características sociais marcantes, dentro de uma história rica e, igualmente desconhecida pelo restante do país. Um estado aonde a economia vinha num ritmo de crescimento “chinês” (se considerarmos indicadores de antes da crise, iniciada no segundo semestre de 2008). Investimentos em mineração, siderurgia, fábrica de cimento, portos e no ciclo de produção do alumínio além de comércio de madeira e pecuária (estima-se hoje um rebanho 14 milhões de cabeças de bois, o dobro da população – segundo informações oficiais do Governo Estadual) puxavam um forte ritmo econômico, alimentados por uma demanda externa crescente.

Esse era a fotografia, de um pedaço do Brasil - terra de dimensões continentais e igual variedade de culturas, crenças, obras, jeitos, gostos, cheiros e sotaques. E avanços ou estagnação na economia. Assim como evolução ou retrocessos nas questões socioambientais. O Brasil é múltiplo – poderia ser não um, mas vários países, pois cada estado realmente parece uma nação diante de tantas diferenças, basta viajar e reconhecer que o Rio Grande do Sul é completamente diferente da Bahia, ou que o Pará é completamente diferente de São Paulo. Acredito que a língua portuguesa foi a costura que nos manteve unidos nesses 500 anos, mas isso é outra história.

Escrevo este post querendo buscar mais afinidades do que diferenças, mais soluções para um futuro comum do que fatos que podem nos colocar mais distantes uns dos outros. Diante dessa fotografia monumental que é o Brasil, com tamanha riqueza, o que o sul ou o norte sabem de si? E o que sabem um do outro, além dos preconceitos ou estereótipos? Pode a comunicação da sustentabilidade servir nesse contexto e aproximar encontros, inovações e soluções conjuntas? Como as empresas podem ajudar nisso, seja num estado ou no outro?

Vamos olhar as empresas que estão espalhadas pelo Brasil e escolher alguns exemplos que poderiam e deveriam ser estudados, divulgados e conhecidos além das fronteiras municipais ou estaduais, ou áreas imediatas de influência. Do Pará para o Paraná, cito o bom exemplo da Fundação O Boticário que, desde 1994, cuida e protege a Reserva Natural de Salto Morato, uma gigantesca área de Mata Atlântica nativa. O local recebe anualmente sete mil visitantes e já foi campo mais de mais de 50 pesquisas científicas (segundo informações do relatório anual da fundação). Além de Salto Morato, em abril de 2007, a mesma fundação comprou uma área onde vai implantar a Reserva Natural Serra do Tombador (GO) que protege mais de oito mil hectares de cerrado. Do Paraná ao Espírito Santo, outro exemplo seria a Reserva Natural Vale, em Linhares, que também cuida de uma imensa extensão de Mata Atlântica, dispondo de viveiro de mudas, coleções científicas, recreação e turismo.

Ou seja, independentemente do foco de seus negócios duas empresas possuem projetos que beneficiam o Brasil e o nosso futuro. Como podemos multiplicar este tipo de ação e facilitar outras empresas em outras regiões se beneficiem do conhecimento adquirido nesses projetos para que novas reservas possam surgir e manter-se com o merecido cuidado técnico-profissional de igual excelência encontrada em Salto Morato e em Linhares? Como os governos e as comunidades podem e devem conhecer iniciativas como estas e trabalhar em sintonia com a iniciativa privada em propostas similares ou projetos novos? A resposta: comunicação.

Outro exemplo. Desta vez bastante polêmico, envolvendo a indústria cimenteira que, em geral, independente da marca do cimento, tem em seu processo de produção uma liberação de CO2 absurdamente alta (mais alta até do que as emissões da indústria global de linhas aéreas). Programas de co-processamento de resíduos industriais, de origem vegetal e pneus (e também lixo urbano) substituindo o combustível fóssil na geração de energia para alimentar seus altos-fornos já são práticas utilizadas pela Lafarge e pela Votorantim Cimentos em diferentes fábricas existentes no país. Ou seja, mais uma oportunidade de troca de conhecimentos entre empresas de diferentes partes do Brasil, e diferentes áreas de atuação para buscar soluções conjuntas sobre mudanças climáticas, geração alternativa de energia, redução de emissões de CO2 e programas de co-processamento. Mas quem está sabendo de tantos projetos e possibilidades como estes uma vez que a comunicação da sustentabilidade seja de cada empresa ou da mídia em geral poucas vezes consegue costurar, conectar estes exemplos com outras iniciativas espalhadas pelo país? Uma interligação que daria uma dimensão maior e que poderia auxiliar muito o Brasil numa economia mais equilibrada entre a dimensão financeira, a justiça social e o respeito ao meio ambiente?

Mais um exemplo: relações comunitárias e a famosa “licença para operar”. O que um empreendimento como o super Porto de Açu, em São João da Barra (RJ) da EBX tem em comum com a Refinaria Abreu e Lima, da Petrobras, em construção entre os municípios de Ipojuca e Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco? Muito! Imaginem a transformação socioeconômica e ambiental de regiões de pouca população, normalmente habituadas à pesca e à agricultura familiar de subsistência num espaço de tempo muito curto serem testemunhas de um abrupto crescimento econômico com a chegada de investimentos de alta tecnologia, aumento da população com exércitos de trabalhadores temporários de empreiteiras e a expectativa de um progresso, de um enriquecimento, de uma vida nova e próspera?

Imaginem o que é ser indenizado pelo preço estimado do metro quadrado da terra ao invés de ser indenizado pela quantidade de coqueiros ou de pés de acerola e a estimativa de quantos anos estas árvores dariam frutos e alimentariam uma família? Imaginem o que é não ter capacitação profissional para poder participar deste progresso porque nunca houve qualquer necessidade de progresso, pois a vida corria mansa à beira do mangue, pelas areias das praias e canaviais? Então, diante disso, eis aí questões de planejamento e de relacionamento (comunicação) que são verdadeiras aulas para outros projetos similares que já estão acontecendo em maior ou menor escala pelo Brasil ou que ainda virão a acontecer nos próximos anos. Como tornar o conhecimento adquirido na construção destes empreendimentos de forma a facilitar a vida das pessoas envolvidas e impactadas? De maneira a se produzir até uma educação para a sustentabilidade em níveis nacionais?

Sim. Parece que escrevo um texto com muito mais perguntas do que respostas, mas a reflexão é necessária e quanto mais pensarmos e discutirmos a respeito, melhor. Uma sociedade mais fraterna, unida e evoluída precisa conversar sobre temas aparentemente só econômicos, mas que na verdade se refletem com uma abrangência maior. E é nesse ponto que mais uma vez defendo o uso da comunicação como ferramenta de relacionamento, de troca de conhecimento, de administração e de educação. Para que posamos saber do que acontece, de como acontece, porque acontece e através de quem acontecem os bons e os maus exemplos. Sendo que eu prefiro ficar apenas com os bons exemplos, pois sou um otimista incorrigível – apesar dos pés no chão. E não seria com este olhar que deveríamos construir o caminho para um aprendizado “nacional” da sustentabilidade?

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