quarta-feira, 24 de março de 2010

"Blue washing" da AmBev?

Todo dia tem sido dia de alguma coisa e por isso há um excesso de datas comemorativas. Quem tem mais "bala na agulha" para fazer sua propaganda (dentro de uma estratégia de comunicação integrada ou não) consegue uns segundos a mais nos holofotes da mídia e alguns instantes a mais da atenção das pessoas.

Ontem foi o Dia Mundial da Água. Mais uma dessas datas politicamente corretas. Talvez este dia ganhe força daqui para a frente: a água é um patrimônio da humanidade - assim como o ar que respiramos. Mas já tem muita gente engarrafando o precioso líquido e querendo assumir a defesa desse verdadeiro tesouro.

Ontem, a AmBev lançou uma mega campanha assinada pela agência Loducca.MPM com direito a encartes e páginas azuladas nos grandes jornais, entre outras mídias (através da TRIP Editora, por exemplo, a AmBev vai trazer uma "revista-rótulo" grudada numa garrafinha pet de água mineral - a ser distribuida ao público e que deverá parar na lata de lixo ou no chão das ruas, mas isso é outra história). O fato é que o espetáculo todo me pareceu muito green washing (aliás "blue washing").

Para quem não sabe ainda, o termo "maquiagem verde" (green washing) foi recentemente criado para identificar empresas que falam muito mas não tem práticas realmente sustentáveis nos seus modelos de gestão. Se não me engano, quem criou esse termo foi a Futerra (www.futerra.co.uk) - alguém me corrija se estiver dando informação incorreta, ok?

Sobre a AmBev, explico minha percepção. Se a AmBev - como diz seu anúncio publicitário, economizou 14.2 bilhões de litros de água entre 2002 e 2009, quanto foi que ela gastou? E mais, quantos litros de água são necessários para fazer um litro de cerveja?

Bom, não vou ser xiita, nem eco-chato, deus me livre! Mas essa é questão maior que atinge diretamente o core business da empresa. Ou ela cuida da água que consome e vende - copiando iniciativa semelhante já existente na Coca Cola Company, ou o negócio dela vai entrar em risco de colapso.

Ou não, afinal, bebedores de cerveja cada mais numerosos não permitirão que se acabem com as latinhas, as garrafinhas, os barris do famoso suco de cevada, pois, assim como o aparentemente inocente churrasquinho de fim de semana é uma escolha pessoal, a cervejada também é. Sabendo ou não que "durante a vida, uma vaca necessita de mais de um milhão de litros de água", segundo o www.boiapasto.com.br., ou que para se produzir 1 litro de cerveja são gastos de 5 a 25 litros de água (segundo a SAAEB - Serviços Autônomo de Água e Esgotos de Barretos disponível em www.saaeb.com.br).

Portanto, o problema da falta de água só vai ser realmente percebido quando o cidadão não conseguir tomar banho ou puxar a descarga da sua privada. O quanto uma latinha de cerveja gasta de água para ser produzida ainda é assunto de conversa de poucos e não vai acontecer nas mesas do Bar da Boa. Mesmo porque é um tema que não "desce redondo".

No mais, compartilho o endereço do Movimento Cyan, criado pela AmBev para vocês conhecerem: www.movimentocyan.com.br. A empresa é uma gigante global e tem poder de fogo para capitanear movimentos de mudança. Mudanças que beneficiem o planeta e as pessoas e não apenas os acionistas, é bom lembrar. Portanto, visitem, opinem, interpretem, perguntem. Comuniquem-se!

Este mundo que estamos construindo hoje é de responsabilidade geral da nação. Cidadãos e consumidores, conscientes ou não. Quem for realmente bom de copo. Copo d' água fresca - diga-se de passagem.

Saúde!

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