sexta-feira, 16 de abril de 2010

AVATAR E BELO MONTE. QUANDO A FICÇÃO CONSTRÓI A REALIDADE?

James Cameron, diretor de cinema canadense e criador do épico ambientalista Avatar – monumental sucesso de bilheteria nos cinemas, colocou o Brasil na rota do lançamento da versão em DVD de seu filme. Cameron já tinha participado como palestrante do 1º Fórum Internacional de Sustentabilidade, em Manaus (AM). No Brasil, mais uma vez, plantou árvore em São Paulo e em seguida juntou-se a uma manifestação em Brasília contra a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte.

Como vivemos numa democracia, ainda bem, até visitantes estrangeiros podem fazer barulho para demonstrar sua insatisfação contra um projeto que, com certeza, é polêmico desde sua concepção. A obra vai gerar impacto ambiental de peso, alagando uma área da floresta amazônica equivalente a 70 mil campos de futebol, segundo previsão da ONG Greenpeace.

Cameron veio acompanhado da atriz Sigourney Weaver que atua em Avatar como uma cientista ambiental e politicamente correta, que defende os “bons selvagens” que vivem numa floresta exuberante do distante planeta de Pandora. Ou seja, nada mais comercialmente válido para o lançamento de um produto de entretenimento do que misturar realidade e ficção. Com todo respeito à causa (eu concordo que vale a pena chamar a atenção para os riscos de uma obra da envergadura de Belo Monte) pergunto, entretanto o quanto de oportunismo não existe nesse tipo de estratégia de marketing e promoção. Aonde quer chegar o famoso cineasta com todo esse espetáculo – dentro e fora dos cinemas?

Numa entrevista para a revista Veja (edição de 14 de abril, 2010) James Cameron coloca: “Avatar 2 e Avatar 3 precisam responder: a humanidade pode ser salva? (...) Os seres humanos serão capazes de absorver as idéias poderosas de Pandora e aplicá-las à própria vida, de maneira a recuperar tudo o que perderam? (...) O primeiro Avatar é apenas um tiro inaugural de uma gigantesca batalha de idéias e civilizações”. Ou seja, nunca foi tão atual ter “uma câmera na mão e uma idéia na cabeça” como armas de convencimento e sedução.

E Avatar tem um enorme apelo emocional. A começar pela nova tecnologia empregada. Além de produzido com sensacionais efeitos visuais, traz a mais recente tecnologia em terceira dimensão e alta definição. Na sala escura do cinema qualquer espectador vivencia a ficção quase como a própria realidade. Se não fosse a passividade com que recebe as mensagens do filme, a experiência seria completa.

Como Hollywood já fez muitas vezes, Avatar coloca mocinhos e bandidos em confronto numa nova fronteira do velho oeste. O bang bang entre os bons e os maus é recheado com um singelo e puro romance de um soldado e uma nativa de Pandora. Uma repetição da conhecida história de amor entre a índia Pocahontas e o Capitão John Smith ou, para os brasileiros, uma releitura modernosa de “Iracema – A Virgem dos Lábios de Mel”. Com a diferença: a Iracema de Avatar guarda os segredos das exuberantes florestas de Pandora ao invés dos segredos do licor de Jurema, da tribo Tabajara.

Assim, mais uma vez, a ficção nos enche de esperança e sonhos, a imaginação quer conquistar o poder e nas três horas de filme ganhamos a primeira batalha na defesa da natureza. Como prega James Cameron em sua entrevista, meio que fascinado com sua criação e inebriado com sua missão salvadora.

Maravilha. Mas voltemos para Belo Monte. Deixemos o espaço sideral e mergulhemos nas terras e na vida real do Brasil. Sei que o impacto das mudanças climáticas não pode mais ser negado ou desmerecido. Entendo que a Amazônia - se não é o “pulmão do mundo”, é com certeza um grande condicionador de ar, influenciando temperaturas e regime de chuvas. Contudo, percebo que o discurso da defesa do meio ambiente pode ser usado para o bem ou para o mal e que questões econômicas e políticas embalam todo esse movimento.

Também devemos reconhecer que obras feitas através de um estilo “Pra Frente Brasil”, muito semelhante aos tempos do regime militar, buscando o crescimento econômico a qualquer preço são geradoras potenciais de conflitos e ações jurídicas após sua execução. Lembremos da Transamazônica e da usina de Balbina, além das centrais nucleares construídas entre dois centros populacionais urbanos como o Rio de Janeiro e São Paulo, num dos mais belos litorais do Brasil.

Impossível ainda fugir da constatação de que é preciso dar conta das demandas energéticas que o país precisa para manter seu crescimento econômico. Todo mundo quer ligar sua televisão, seu computador, sua geladeira, não é mesmo? Até mesmo muitas tribos indígenas da Amazônia já querem esse tipo de progresso.

Por isso, o que busco pontuar nessa análise é que o projeto de Belo Monte deve ser discutido com muita atenção por parte do Congresso Nacional, do Ministério Público, dos órgãos reguladores e fiscalizadores, do IBAMA, do MMA, do MME e das universidades. A imprensa deve fazer sua parte na divulgação dos diferentes pontos de vista. E as comunidades locais devem ser ouvidas – pois serão diretamente afetadas. Os riscos são grandes de se produzir energia com um impagável custo sócio-ambiental.

Dessa forma, o que menos precisamos é de show, espetáculo e “marqueteiros” em torno de um assunto tão sério. Porque filme a gente vê no cinema e em obra de ficção cabe de tudo. Já a vida fora do telão e da telinha é totalmente diferente. Não vamos confundir as coisas para não correr o risco de ficarmos com a cabeça e os pés nas nuvens.

Além do mais, o Brasil já tem muito diretor de cinema para subir em palanque. Não precisamos de mais um vendedor de sonhos “bem intencionado”. Com uma caixa de DVDs made in Pandora debaixo do braço, repleta de delírios espetaculares.

2 comentários:

Fabiano Barreto disse...

Excelente Análise!

Para além do dualismo característico dos conflitos entre mocinhos e bandidos, do espaço ou de planícies sem fim, reflete a necessidade de uma abordagem holística sobre uma questão complexa.

Muito bacana!

Luiz Antônio Gaulia. disse...

Obrigado pelo comentário Fabiano!