sexta-feira, 25 de março de 2011

No mundo das imagens modernas, a juventude é um fantasma eternamente jovem.


Foi Salman Rushdie quem escreveu que o sujeito atual é como um prédio sem estabilidade, construído com "mágoas da infância, artigos de jornal, velhos filmes, observações casuais" como se nossas vidas fossem uma narrativa de fragmentos, montados por acidente, de improviso, repleta de recortes.


Numa sociedade visual como a nossa tudo se complica diante da única realidade existente: o tempo. Apesar de vivermos acelerados num turbilhão de redes sociais digitais e os estímulos eletrônicos, imagens publicitárias e flashes sobre o último escândalo da semana ou a mais recente celebridade, nada pode deter o tempo. Se a imagem congela o momento (criando o mito da eterna juventude) é o espelho quem nos brinda com a retomada da consciência.


Chega a ser engraçado essa corrida pelo novo, pelo amanhã, deixando o dia de ontem esquecido. Pois velho e ultrapassado, suas manchetes não vendem mais, suas "novíssimas" novidades já se esgotaram na troca das vitrines, na liquidação arrasadora, no descartável lançamento seguinte, no saco de lixo colocado na rua.


Não há como enganar nosso próprio eu. Nem a propaganda, nem o glamour passageiro da fama ou o melhor da auto ajuda, nada vai parar a marcha dos ponteiros do relógio. A escolha que fica é a opção pela dignidade, pelo respeito. Pelo que a fragilidade de um corpo envelhecido possa servir de vínculo com o que nos faz humanos. Solidariedade, fraternidade, cuidado.


Podemos tentar envelhecer com mais sabedoria ou fingir não reconhecer as rugas como marcas da vida e perseguir o fantasma do jovem eterno - lembrança fugidia, imagem de um passado distante. As clínicas de plástica, botox, cosmética e promessas milagrosas de beleza e juventude eterna estão cheias de gente. Nada contra, pelo contrário. Que sejam felizes com seus tratamentos, com suas escolhas e seus resgates. Mas que não virem fantoches deseperados, nem caricaturas.


O corpo como morada da alma, pode ser sempre adorado, bem tratado, cuidado. Sem que torne-se uma triste comédia, casca pintada embalando um enorme vazio interior.

2 comentários:

Flávia disse...

Como diz Paulinho Moska: "É tudo novo de novo"... (http://letras.terra.com.br/paulinho-moska/125486/).

Gaulia, obrigada por lembrar de refletir sobre o que nos faz ouvir:
- Forma ou conteúdo?
- Eis a questão: parecer ousados ou ousar não ser parecido? Melhor é ser e transparecer.
- Nos esforçamos em recriar novidades, enquanto deveríamos renovar nossa capacidade de criação, de invenção, de ilusão. Buscar por libertação do mundo industrial da cópia, da reprodução das imagens fragmentadas e fugazes.

- Decidir se queremos aplicar no mercado das "commodities" (celebridades cunhadas por Warhol, beleza, juventude...) ou investir na bolsa de valores das novas gerações?

- Há diferença entre ser polêmico e ser contestador?

- Optar pelo tempo ampulheta ou pelo Tempo Rei?

...

alessandro disse...

Genial!!!!! Muito bem colocado.
Hj não há espaços para um Da VInci. Estamos na sociedade das especificações, do passageiro, das novidades. Não há tempo para reflexões.
Quem pára e pensa, parece estar ficando para trás,
engolido pelo motor do mundo acelerado.
Somos dinossauros. Somos fósseis e essa que aí está
é uma outra humanidade, ávida por novidades, por movimento e nada, nada contemplativa.
Viva a vida simples!!!!