quarta-feira, 13 de julho de 2011

Che Guevara S.A.



A célebre foto do guerrilheiro argentino Che Guevara tornou-se estampa de camiseta, tatuagem, selo, chaveirinho e foi consumida pelo mundo como ícone da luta pela liberdade. Há 50 anos, Guevara lançava bombas contra a ditadura de Batista em Cuba, tentava organizar uma guerrilha na África e ainda fazer uma revolução na Bolívia. Matou muita gente e acabou preso e fuzilado. Aqueles eram tempos de um mundo bipolar onde a extinta URSS dividia o planeta com o Tio Sam.


A história nos mostra que o mito suplantou o homem, um rebelde que não poderia imaginar como sua imagem seria embrulhada pelo espírito capitalista, sendo idolatrada até por grandes empresas multinacionais. Exatamente contra as quais Guevara lutou.


No mundo de hoje, muita coisa mudou. Somos multiculturais, os BRICs dividem espaço na geopolítica mundial com a Europa e os EUA. Fala-se em responsabilidade social corporativa, fala-se em diversidade...Só mesmo a busca de lucros e de consumidores não mudou. Pelo contrário. Agora, o vale tudo das leis de mercado se supera.


Por falar nisso, recebi da Akzo Nobel , a futura "most meaningful paint company" do mundo, de acordo com a própria visão de futuro da empresa, a última edição da sua revista corporativa A - Tomorrow´s Answers Today. A capa deste mês pinta o Che com cores vivas e vibrantes, num estilo baseado em Andy Wharol . Talvez o primeiro Che Guevara corporativo que se tem notícia.


Para quem não conhece direito a história, o uso da imagem do Che é um clamor à liberdade, ao espírito questionador e inventivo da juventude. Um chamado à quebra de paradigmas, mesmo que pela força das armas. Com gente morta, contra e a favor. Uma mudança muito mais profunda do que a troca das cores nas paredes do quarto de dormir.


Já para quem percebe na ação de marketing a incoerência do seu próprio discurso, estrategicamente embalada para conquistar corações e mentes dos incautos, fica a pergunta: que diabos o cara está fazendo naquela capa? Será que a Akzo Nobel tem esse espírito no seu dia a dia de trabalho? Nas suas fábricas? Nas suas relações comerciais com parceiros e fornecedores?


Não sei. Talvez eu esteja desatualizado, mas não consigo enxergar nada além de um greenwashing cultural nas cores dessa estratégia . Onde o "caminhando e cantando" do discurso está fora da ordem prática da companhia.


Espero estar enganado. Afinal, Hay que endurecer, pero sin perder la ternura jamás é uma frase que poderia ser emoldurada nas salas de reunião de grandes corporações. Só para lembrar que o mercado pode ser extremamente selvagem, sempre que colocarmos a ternura, os afetos e o cuidado com a vida das pessoas em último lugar na escala de valores.





Um comentário:

Anônimo disse...

"TUDO QUE É SÓLIDO DESMANCHA NO AR!"...como já escreveu Marx.