sábado, 22 de junho de 2013

A rua é a rede.

Me parece que o Brasil tem um exemplo para dar ao mundo.Sempre fantasiei que nosso país tinha o formato de um coração e que, como dizia o maestro Tom Jobim, era o único país com nome de árvore. A nossa gente e a nossa história mostraram para outros povos questões e acontecimentos únicos. Tivemos movimentos como as Diretas Já, o impeachment de Collor e as eleições de um sociólogo e de um operário, bem como de uma mulher, ex-guerrilheira. Agora, temos a transformação (ou seria resgate?) da maior e mais emocionante rede social do planeta: as ruas - fervilhando de vida com cidadãos engajados, indignados e atuantes.O diálogo virtual ganhou corpo e voz real. A tecnologia, sim, facilita essa conexão de uma forma inédita até hoje na história da humanidade e aqui, no Brasil, ela ganhou uma dimensão nunca vista em volume e repercussão.Por vezes tudo isso gera um receio, um medo do que ainda está por vir, mas as novas gerações já nascidas nesse cenário eletrônico do tempo imediato navega com naturalidade nesse sistema, nessa rede de interligados discursos, opiniões e comentários E corações!

As organizações, os governos, as empresas e demais instituições que não pereceberam ainda a força desse novo mundo - que tomou as ruas do Brasil com ruas lotadas de manifestantes, de norte a sul, dando vida concreta ao "compartilhar" dos smartphones e tablets podem desaparecer no rastro dessa dinâmica. Podemos perceber esse risco na demora em dar respostas ou divulgar algum tipo de comunicado oficial. Se dentro das empresas os funcionários ainda não possuem total liberdade de conversar, interagir e  opinar, nos governos parece que a situação é pior ainda pois a burocracia e a hierarquia política baseada em comando, controle e poder de polícia engessa a necessária habilidade de comunicação e influência nessas redes.

Simplesmente não há opinião, até que as ruas, novamente, com seus gritos virtuais e reais balançam as estruturas e os líderes com semblantes embasbacados. Sim, a violência é um fato, mas esses violentos também fazem parte de um passado - são minoria avessa ao diálogo. E o diálogo é uma premissa de qualquer rede social. Assim como num chat, esses corpos estranhos à comunidade que conversa e interage serão expulsos da convivência. Ou aprendem a dialogar ou estarão condenados ao isolamento. Ao contrário do diálogo, a violência é suicida. Ao contrário da violência, o diálogo é a própria característica molecular da vida, do encontro, da troca genética e da multiplicação das células. O diálogo em rede é a porta aberta para nosso futuro comum. A violência é o lixo que nos sufoca.

As ruas do Brasil mostraram ao mundo que um novo tempo chegou - sem pedir licença. Muitos não perceberam os sinais, não souberam ler os cenários e tantos outros não queriam perceber. Os teimosos na sua cegueira e na surdez organziacional, agora assustados, terão que se manifestar e terão que se adaptar: Num tempo no qual todos são comunicadores, os que negociam pela palavra e pela coerência dos seus atos e propostas terão destaque. Naturalmente, surgirão novas referências políticas e a história seguirá seu curso. As ruas, as redes sociais do mundo real, são a grande convocação e comprovação de que o ser-humano nasceu por um ato de comunicação. Viver é comunicar e comunicar é conhecer o outro em tudo que nele é espelho. Portanto, prazer em conhecer, vem para rua você também! Este nosso Brasil tem sim formato de coração e tem sim um exemplo de cidadania consciente e de esperança para ser compartilhado com o mundo.

3 comentários:

Maurette disse...

Brilhante e emocionada análise do nosso cenário, Luiz. A rua é a rede, não há dúvida. Por isso a música "vem pra rua" se tornou o hino dessa nova verdade que, de fato, dá exemplo ao mundo.
Acho que a violência aqui é orquestrada e bem paga. Pelo seu tamanho e pelas reações que tem gerado, é fácil desconfiar. Apesar das declarações do movimento Passe Livre, acredito que o povo sentiu o gosto das ruas de forma definitiva e não sairá mais dela. O espaço democrático foi reconquistado - e agora é ver como o poder constituído responde. Esperamos que o faça condignamente, para corroborar a democracia, e ouça o povo. Não me parece hora de medo, e sim hora de união. A violência precisa ser expluída desse contexto o mais depressa possível, para que o debate se multiplique e as mudanças aconteçam. Claro está que os 20 centavos foram a gota d'água, mas o resultado social dessa enorme força que despertou simultaneamente em todo o país vai muito além disso. Estamos na rua e é da rua, associada á tecnologia que a estimula e reforça, que sairá um novo país. Que os governantes ouçam, de uma vez por todas, o povo que os elege, pois do contrário teremos grandes problemas. Com a essencial diferença que, agora, o povo está pronto para se defender condignamente. Maurette

Luiz Antônio Gaulia. disse...

É Maurette, uma nova página da nossa história vai se escrevendo e confirmando que o caminho se faz ao caminhar. A oposição política acreditou na propaganda do governo e foram as ruas que revelaram a pauta da cidadania: mais escola, saúde, transporte digno e respeito à Lei.
E menos festa com o dinheiro do contribuinte e maior controle dos gastos públicos!

Anônimo disse...

Acho que a rua tornou-se oportunidade pra bandidagem passar seu recado. Qual a pauta agora? Aqui no Leblom tivemos furtos e quebra quebra...ora isso virou convite pro crime quando deveria ser ou continuar como via de voz da cidadania. Sinto muito, mas a PM esta certa em reprimir, sim!