domingo, 23 de fevereiro de 2014

Corações e cérebros coabitam o interior das empresas.

Os afetos e o sentir nunca fizeram parte da conta fria das metas e dos resultados. Sempre estiveram fora das planilhas de cálculo de valor. Contudo, quando falamos em cultura organizacional devemos ter em mente que a cultura é uma dinâmica viva, que pulsa de acordo com o coração institucional. 
 
Corações e cérebros coabitam o interior das empresas. Poucas, entretanto, os percebem em suas interações e influências mútuas. Acostumadas aos conceitos industriais, mecanicistas e técnicos, as empresas deixam de considerar como relevantes os sentimentos e a energia positiva ou negativa oriunda do emocional humano e seus impactos nos rumos traçados de forma puramente racional do plano de trabalho. Campanhas de “Endomarketing”¹ ou ações motivacionais até surgem como respostas tradicionais quando as pesquisas de clima medem a pressão interna e descobrem que o pulso organizacional bate fraco, deprimido, sem desejos. Ou bate forte e descontrolado devido a incoerências e desequilíbrios na gestão e nos vínculos internos. Importante esclarecer que são as lideranças, exemplos do alto da hierarquia, que moldam a cultura e estimulam hábitos, comportamentos, tom de voz, transparência e discurso franco.
 
No campo do diálogo, a comunicação interna se faz permanente não só pelos canais oficiais de entrega da informação, pela rádio corredor ou mesmo nos comentários dos sites que articulam as redes sociais. O comunicar se reflete na energia dos lugares de encontro, nas salas de reunião, no cuidado com a estética alinhada com a ética e com a técnica! A comunicação se faz pelos afetos aparentemente ausentes. Nas empresas, cada vez mais o emocional mexe com o metabolismo da organização e numa sociedade de conhecimento em rede, essa tendência se amplia forçando o uso da tecnologia a ganhar uma face mais humana, sensível, cordial... do coração!
 
Sabemos que ser emocional demais atrapalha, assim como ser unicamente racional inviabiliza a ternura. Se o lado racional nos permite tecer conclusões, é o emocional que nos dá o ímpeto da ação. Por isso, proponho “humanizar as relações humanas” e assim considerar o outro e seus sentimentos, afetos e desejos. Sonhos, visão de mundo, modelo mental, modo de falar e se expressar. O objetivo a atingir deve ser comum: realizar a missão da empresa, cumprir a promessa da marca. Mas se o coração está vazio, o cérebro não vale nada. É uma lâmpada apagada. Pessoas comuns podem se tornar notáveis quando impulsionadas por sua emoção e percebem e acreditam que podem fazer coisas extraordinárias. Nossa biologia deve ser considerada, nossa maneira de fazer comunicação nas empresas deve ser menos autoritária e mais afetuosa.
 
Na minha leitura, essa é a tônica da comunicação nas empresas e nas organizações em geral: trazer o afeto para a palavra e para a comunicação interna e dar significado, sentido e energia para as informações que circulam e para os resultados traçados no plano de negócios. Colocar mais poesia no cotidiano das narrativas, inserir os afetos nas reuniões de brain storm e transformá-las em heart storm. Unir o by the book ao by the hearth², pois o cérebro sozinho sabe montar peças e articular modelos industriais, mas na sua frieza calculista criou executivos robotizados, operários alienados e um mercado insustentável. Ele criou um mundo com obras gigantescas, máquinas espantosas, apelos de consumo tentadores, mas também uma natureza depredada em seu entorno. Criou a riqueza de um circuito financeiro global e a mercantilização de valores e compromissos nunca pensados em termos de produto, quantidade, preço e devido a isso, cercado de miséria nos quatro cantos do mundo. Nosso futuro comum não vai suportar mais esse modelo.
 
É hora de considerar o ritmo do coração, a alegria e o entusiasmo no jeito de pensar, ser e agir e também no modo como conversamos dentro das empresas e nos percebemos inseridos no ambiente, por inteiros. É hora de trazer os poetas para entenderem mais de política, negócios, gestão e planos de marketing incluindo aqui a dimensão artística e cheia de calor humano em tudo aquilo que se refere ao mundo do trabalho e da geração de valor compartilhado.  

¹ Saul Bekin cunhou o termo Endomarketing em 1995.
² Essa comparação eu escutei de Ricardo Guimarães da THYMUS numa das nossas reuniões de Branding na Estácio Participações em 2013.

Nenhum comentário: