sábado, 13 de dezembro de 2014

Storytelling.

O contar histórias sempre existiu desde que o mundo é mundo. Storytelling não é nenhuma novidade, portanto. Jesus Cristo foi um grande contador de histórias. Suas parábolas vendem milhares de Bíblias com o Novo Testamento, todos os anos, até hoje e nós não temos muitas certeza de quem realmente escreveu as histórias ali registradas. Eu as adoro, mas que me perdoem os cristãos do mundo ou mesmo as demais religiões com seus livros sagrados, sempre repletos de histórias contadas, mas serão verdade? Claro que não, dirão alguns. Claro que sim, dirão outros. "Assim é se lhe parece" responderia Pirandello.

A ilusão nos fascina e sempre saberemos que ela é apenas uma história para boi dormir. 

Os escritores que sonharam com romances impossíveis e de seus delírios ou desejos surgiram histórias com personagens fantasiosos como "O Grande Gatsby", de Scott Fitzgerald (1925); "O Dia dos Gafanhotos", de Nathanael West (1939), que descreveu uma Hollywood dos anos 1930 repleta de protagonistas inexistentes decadentes e derrotados e ainda "A Cor Púrpura" de Alice Walker (1982) que também nos trouxe um storytelling que bem poderia ter sido verdade, mas sem a licença poética e criativa de sua autora nunca teria sido colocada no papel. E sem nova licença criativa, nunca seria lançada nas telas do cinema, refazendo o livro com um roteiro adaptado de forma brilhante e igualmente fantasioso. Tudo é metáfora, acredite quem quiser.



Eu poderia citar aqui, milhares de outros contadores de histórias e suas histórias mirabolantes, lindas e sedutoras montadas a partir da mais pura ilusão. Uma ilusão que nós amamos, pois muitas vezes queremos acreditar no conto farsesco, na mentirinha gostosa ou mesmo numa bela história de amor e encanto. Somos assim, desde criancinhas quando escutávamos nossos pais contar historias.

Contar uma história é contar um lado de uma história 

Ora, se todos queremos acreditar num sonho, numa lenda, num sermão, num discurso por que não queremos acreditar num produto, num rótulo, numa marca? Será que somos iludidos ou nos deixamos iludir? será que não conseguimos perceber a diferença de uma farsa ensaiada num palco da realidade? Será que confundimos o sonho de uma sala escura de cinema com nossos próprios sonhos e saímos encantados pelas histórias contadas na telona do cinema? Eu só sei que ao contarmos uma história contamos uma parte de uma história e a interpretação de nosso ouvinte e interlocutor possivelmente vai remodelar a história ouvida, lida, vista, percebida, imaginada e transformada. "Assim é se lhe parece". Novamente o genial Pirandello.

Nessa linha de raciocínio, o storytelling também sempre serviu para o consumo de uma marca. Uma marca de roupas da moda, por exemplo, todos podemos bem saber, é apenas uma roupa com uma etiqueta, uma vestimenta, mas a compra e o vestir daquela peça, daquele corte de tecido nos enchem de fantasias. Podemos nos sentir atléticos, ricos, elegantes, sedutores. É a roupa que usamos ou nossa imaginação? Com aquela peça de roupa somos outro ou outra pessoa, não é mesmo? Do que dizer então de um perfume? 

Você já viu alguma peça publicitária de perfume que não seja mera fantasia? Pegue qualquer peça publicitária e olhe...é a mais pura fantasia. Uma história inventada. De sonho, ilusão. Metáforas...



Alguém duvida que esse surrealismo possa ser real? Claro que não!

O storytelling publicitário está virando crime?

Exageros ou não, todo esse texto até aqui me serve como provocação para pensarmos o quanto de tolice e repressão está se tornando essa verdadeira caça às bruxas contra a publicidade de um produto que se apropria dessa tal "storytelling". Ultimamente, seja para vender um suco, um carro, uma lingerie, um sorvete tenho visto - minha opinião - muita perseguição. Pelo amor de Deus, o que está acontecendo? Vamos chegar ao ponto de proibir as propagandas? 

O caso do Diletto me parece exatamente esse tipo de exagero, de busca pela verdade completa e de um extremismo que enxerga empresários prontos para assaltar o consumidor "tolinho" em cada esquina. Você, prezado (a) leitor (a) se acha um indefeso consumidor na hora de comprar uma caixinha de sorvete? Até o CONAR além de alguns setores da sociedade pensam que sim, que você precisa de tutela pra se defender.



Ou as propagandas deverão ser sempre técnicas com fatos e dados e completa chatice? Toda propaganda é meio mentira, qualquer um sabe disso pois não existe consumidor que seja tolo hoje em dia. Desde criancinha todo mundo tem a noção do que é verdade ou não. Acontece assim na Política, acontece assim com o consumo de produtos. A propaganda enquanto um tipo de conto, de metáfora é muitas vezes exagerada mesmo.  A interpretação individual será sempre individual, dependente do ponto de vista. Da vista de um ponto.


Outro exemplo que quero destacar aqui, além do sorvete Diletto, é o do o embate do CONAR contra o Sucos do Bem, de quem sou fã e consumidor fiel. A marca contou sua história e foi questionada. Gente, o suquinho é gostoso? Vamos comprar e beber. Gostou? compra de novo. Não aprovou? Muda de marca! Faz mal, tira da prateleira. Funciona assim como  zapping nos canais de TV. Independente da história contada ou da marca com o ursinho estampado. Ou o urso tem que ser real e trabalhar na confecção do doce gelado? Piada, né?

A Coca-Cola, por exemplo, é outra marca que possui dezenas de histórias e propagandas inventadas e fantasiosas. Alguém acredita que o urso polar bebe Coca-Cola? Ou que o Papai Noel, símbolo da marca, é pura fantasia? Então devemos proibir isso também? Façam-me o favor. "Talibãs" de plantão, cuidado, a sociedade não precisa de tutores especializados em proibir pelo bem da verdade. 



Pois como já escreveu Hegel, a verdade última é inatingível, não existe um absoluto apenas uma enorme subjetividade. Portanto, deixem as marcas contarem suas histórias e nós mesmos escolhermos em que queremos acreditar ou não. Sem opções, viraremos todos servos de uma Grande Irmão...mentiroso!

Referências das imagens deste post:  


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