sábado, 6 de junho de 2015

Ken morreu. Viva o Ken.

 Leio que um rapaz que trabalhava como modelo e se autodenominava de Ken, aquele boneco namorado daquela boneca conhecida como Barbie - fenômeno mundial de vendas -, morreu de leucemia. De longe, sem conhecer o ser humano por trás do personagem, um rapaz de apenas 21 anos, comecei a pensar sobre a busca de uma identidade pela juventude.

Tarefa difícil num mundo complexo, repleto de marcas e apelos de toda ordem a oferecerem identidades imediatas para o uso pessoal, a questão das identidades é permanente e mutante. Para o jovem, entretanto, viver e descobrir-se adulto e sair dos contos de fadas para a realidade, a construção pessoal de uma identidade e da resposta ao "quem sou eu" traz enfrentamentos e muito mais dúvidas do que certezas. Enfrentamentos que nos acompanharão por toda a vida pois cada idade nos coloca novas esfinges a serem decifradas. Superar dificuldades, preconceitos, ir além de estereótipos. Nunca foi fácil descobrir o nosso lugar no mundo e viver a consequência dos nossos atos.

Um poderoso arsenal emocional explode no coração e nas mentes de crianças e adolescentes todos os dias.  Ao longo de nossas vidas deixamos de ser uma pessoa para nos tornarmos outra. Nossa condição humana nos exige essa mudança constante, pois temos que adaptar nossas vontades e desejos num conjunto social maior. É o preço da convivência. Não existe portanto, um sujeito perfeito, pronto, coberto de certezas. A "paz  que se busca no controle só pode existir no convívio com o risco e com a incerteza" escreveu o rabino Nilton Bonder.


Aprender a lidar com as variáveis e a negociar com a vida, até moldando nossa identidade pessoal para melhor transitar por uma sociedade plural não é abrir mão de nossas convicções, mas sim, ser emocionalmente inteligente para dar conta de inúmeras situações que o atual cenário político e cultural nos apresenta. E sempre apresentará. A vida é orgânica, não há manual pronto para experimentá-la. Por certo, a descoberta de valores pessoais nos darão uma base mais forte para caminhar e enfrentar tempestades, mesmo que vestindo personagens. O mundo atual está mercantilizado por marcas e símbolos,e nós mesmos já nos tornamos produtos para o consumo do olhar alheio. Ou não?


Com apenas um olhar mais atento podemos perceber que mesmo as identidades nacionais dos tempos de 30 ou 20 anos atrás são outras. Países inteiros já não se reconhecem através de seus mais tradicionais estereótipos (certamente moldados por lentes de certa forma preconceituosas).  É a marcha da globalização, é o progresso, são novas opções culturais e comportamentais, são disputas pelo sentido, são várias as influências políticas e ideológicas. De uma geração para outra, sempre pareceu natural o conflito, mas é a morte que nos faz pensar sobre a vida enquanto uma busca diária pelo significado. Significado é o que nos move...

Teria sido assim com o Ken humano? Rapaz cheio de sonhos e expectativas e também de medos e dúvidas, leio que começou a fazer cirurgias para alcançar um rosto idêntico ao boneco desde os seus 16 anos. O menino não era o único a querer tornar-se um boneco de linhas perfeitas. Ele namorava a "Susie humana", uma  bonita jovem de Minas Gerais. Essas identidades pareciam ser um bom negócio de vida, mesmo que muitas vezes, um pouco surreal demais. Os dois jovens não são os únicos. Existe uma Barbie humana na Rússia, uma modelo que desfila nas redes sociais cada vez mais artificialmente natural ou naturalmente artificial. Existe outro Ken, este norte-americano e dezenas de outros Kens e Barbies.



Provavelmente prisioneiros de seus personagens, eles fazem parte de uma tendência que conecta admiradores e consumidores  de marcas famosas, seguidores de estrelas da música e do cinema, torcedores de times de futebol e suas torcidas organizadas, bem como jovens fanáticos religiosos do Estado Islâmico ou garotos e garotas seguidores de ideologias políticas autoritárias (lembremos da juventude hitlerista, dos jovens maoístas chineses e da meninada que veste camisa com o rosto de Che Guevara - mesmo com pouco saber a seu respeito).

Buscamos identidades para nos tranquilizar enquanto indivíduos inseridos em comunidades e estas numa sociedade repleta de diferentes. Queremos um significado para melhor descobrirmos o mundo dos outros. Mas "o significado é inerentemente instável" como já escreveu Stuart Hall. Ninguém conseguirá criar mundos fixos e estáveis pois sempre existiram significados "suplementares" que vão subverter nossas afirmações e premissas. Longe de uma permanente e destruição de valores e crenças, reconstruímos e revisitamos identidades como apontou o filósofo Jacques Derrida (1981).

Mas voltemos ao Ken. O boneco brinquedo que faz par com a Barbie. Em 1950, a criadora da bonequinha Barbie, Ruth Handler, esposa do presidente da Mattel inventou uma boneca com características mais humanas e inseriu o brinquedo no mundo real no qual a mulher não era mais apenas uma dona de casa. Por mais que alguns críticos a coloquem como mais um dos ícones da americanização cultural do mundo, a Barbie é um sucesso também por considerar uma enorme e dinâmica diversidade: Barbie em amigas como Becky, boneca-amiga deficiente física (um lançamento de 1990) e ainda uma irmã negra (Christie) e Kira, amiga asiática. E claro, o Ken. Todos produtos que vendem milhões por ano.


Mas o modelo Ken, humano e brasileiro, morreu de leucemia. Não posso deixar de considerar que um boneco não tem sangue. A leucemia devora os glóbulos vermelhos. A busca pelo objeto teria tomado por completo o garoto vivo,que sonhava em ser perfeito mas no receio de viver num mundo imperfeito não deu conta de elaborar sua vida em meio a um caos que nos desconcerta, mesmo após adultos?

Esse conto de fadas moderno, mistura de identidades reais, imaginárias e comerciais, não teve final feliz. Talvez não haja história na escolha de um personagem feito exclusivamente para vitrines. Diferente de histórias infantis que mergulhavam nos arquétipos coletivos, a opção por tornar-se um Ken narcísico trouxe mais solidão do que qualquer outra opção. Uma identidade solitária voltada para espaços virtuais onde pululam rostos bonitos e igualmente solitários pode derrapar em conflitos psíquicos que o próprio corpo responde com uma doença ou dor.

Do meu distante local de observador, penso aqui com meus botões: será que a palavra conseguiria salvar esse garoto Ken? Será que a palavra ainda é possível num mundo de imagens poderosas que diferentemente das narrativas de contos de fadas já distribuem identidades prontas e indiscutíveis? Fica aqui o tema para uma próxima publicação.


Leia também:
Marie Louise Von Franz - "A Interpretação dos Contos de Fadas"
Nilton Bonder - "Fronteiras da Inteligência"
Stuart Hall - "A Identidade Cultural na Pós-Modernidade"
Carlo G. Jung - "O Homem e seus Símbolos"
 
 

2 comentários:

Anônimo disse...

Belo texto, reflexão essencial!

Anônimo disse...

Para buscar máscaras e personas que nos identifiquem nos endividamos no cartão e até ingressamos no exército para defender significados... o home é um tolo, perdido em fantasias e desejos?